O Chocalho que Resiste: Benítez Torres, poeta conterrâneo de Crateús

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Benítez Torres, poeta conterrâneo de Crateús, apresenta em O Chocalho que Resiste uma leitura lírica da identidade sertaneja. No poema, o som do chocalho, o aboio do vaqueiro e a paisagem da caatinga conduzem uma narrativa sobre memória, trabalho, fé e pertencimento.

Ao compartilhar o texto, a Casa do Ceará valoriza a produção cultural de seus conterrâneos e destaca uma obra que transforma elementos da vida no sertão em símbolos de resistência. A composição percorre a seca, a esperança da chuva e a permanência das raízes nordestinas na vida de quem parte e de quem fica.

Um poema sobre memória e resistência

Publicado no documento encaminhado à Casa do Ceará com o título O Chocalho que Resiste — Benítez Torres, Poeta da Terra da Luz, o texto usa imagens do cotidiano rural para registrar saberes transmitidos entre gerações. O chocalho deixa de ser apenas um sinal do rebanho e passa a representar a continuidade de uma história coletiva.

Capa do poema O Chocalho que Resiste, de Benítez Torres, poeta da Terra da Luz
Capa do poema O Chocalho que Resiste. Crédito: documento fornecido para publicação na Casa do Ceará.

O Chocalho que Resiste

Na vastidão do sertão nordestino,
onde a caatinga finca raízes na aridez
e o sol escreve, em fogo, sua história,
um chocalho rompe a quietude da manhã,
atravessa espinhos, veredas e distâncias
e anuncia que a vida permanece,
mesmo quando a terra parece adormecida.

Preso ao pescoço do gado,
pelas mãos calejadas do vaqueiro,
não é apenas um instrumento
que denuncia a presença do rebanho:
é a voz mais antiga do sertão,
um chamado que atravessa gerações,
desperta lembranças adormecidas
e devolve à imensidão
os ecos de uma história que não se apaga.

Seu som carrega o suor dos antepassados,
a memória das primeiras jornadas,
a coragem de quem enfrentou estiagens
sem abandonar a dignidade
e a força de uma gente
que aprendeu a transformar adversidades
em lições de permanência.

Porque o sertanejo não nasce apenas da terra:
nasce também da coragem herdada,
das mãos que abriram caminhos,
das sementes lançadas à espera das chuvas
e da fé que atravessou gerações
sem se deixar vencer pelo desalento.

Entre espinhos de xique-xique,
onde a vida desafia a escassez,
o sertão revela sua fortaleza.
Suas raízes procuram, nas profundezas,
aquilo que a superfície lhes nega,
ensinando que resistir
não é desconhecer a dor,
mas encontrar forças para atravessá-la.

E quando o mandacaru floresce,
mesmo sob a severidade da estiagem,
a caatinga parece anunciar
que a esperança também possui raízes
e que nenhuma estação adversa
consegue impedir para sempre
o renascimento da vida.

Na terra de chão duro e caminhos antigos,
a foice enfrenta a jurema,
abre passagem entre os espinheiros
e devolve espaço à lida do campo.
Sob o sol inclemente,
o trabalhador prossegue,
fazendo de cada jornada
uma afirmação de coragem e dignidade.

São mãos marcadas pelo tempo,
que conhecem o peso da enxada,
o fio da foice,
a aspereza da terra
e o valor de cada conquista.

Mãos que plantam, cuidam e colhem;
que levantam casas, sustentam famílias,
preservam costumes
e transmitem aos filhos
a sabedoria aprendida com os mais velhos.

Porque há ensinamentos no sertão
que não se encontram nos livros:
vivem na palavra dos avós,
na experiência dos pais,
na partilha do alimento,
na solidariedade entre vizinhos
e na coragem silenciosa
de quem recomeça a cada amanhecer.

Ao longe, a asa-branca
atravessa os céus da memória,
despertando saudades antigas,
lembranças de quem partiu
e sonhos de quem permaneceu.

Seu voo parece dizer
que a distância não desfaz as origens,
que a saudade não sepulta os afetos
e que nenhum caminho percorrido
é suficientemente longo
para separar um coração
do chão onde suas raízes nasceram.

E então se levanta o aboio,
comprido, profundo, sentido,
ecoando pelas veredas,
pelas serras e pelas chapadas,
como uma prece que se alonga
na voz do vaqueiro.

É canto que conduz o rebanho,
mas também guarda a memória
de homens que aprenderam
a conversar com a imensidão.

É voz que atravessa a distância,
reconhece o gado pelos caminhos,
acompanha o movimento da vida
e transforma a solidão da jornada
em companhia para a alma.

Há nesse aboio um lamento antigo,
a saudade dos que partiram,
a lembrança dos que ficaram,
o sofrimento das estiagens
e as ausências que o tempo
não conseguiu apagar.

Mas o lamento não é rendição.

É a expressão de quem conhece a dor
sem permitir que ela governe o destino;
de quem contempla a terra ressequida
e continua acreditando
que a chuva há de chegar,
que a semente há de germinar
e que o sertão encontrará
novas razões para florescer.

Porque o povo nordestino
não se resume às agruras da seca,
nem às dificuldades da sobrevivência.

É povo de cultura e tradição,
de trabalho e solidariedade,
de fé, coragem e alegria;
povo que canta, celebra, acolhe,
reinventa caminhos
e encontra, nas pequenas coisas,
a grandeza de viver.

É gente que conhece o valor
de uma mesa compartilhada,
de uma porta aberta,
de uma amizade verdadeira,
de uma conversa ao cair da tarde
e de uma palavra empenhada
que vale mais do que qualquer promessa.

É gente que guarda no coração
a devoção ao Criador,
que agradece pela chuva,
pela colheita, pelo pão,
pela família reunida
e pela bênção de mais um amanhecer.

Gente que não se curva à adversidade,
mas se ajoelha, por gratidão,
diante da grandeza de Deus.

O vaqueiro conhece essa linguagem.

Ao ouvir o chocalho,
não escuta apenas o movimento do gado:
reconhece o caminho percorrido,
o esforço de tantas jornadas,
a convivência com a natureza
e os ensinamentos recebidos
daqueles que vieram antes dele.

Cada badalada parece guardar
um pedaço da história nordestina:
o chão rachado pela estiagem,
a poeira levantada pelos cascos,
o aboio atravessando a distância,
a sombra acolhedora de um juazeiro,
a água desejada,
a fé renovada
e a alegria do reencontro.

Mas guarda também
as histórias contadas ao anoitecer,
as cantigas que atravessaram gerações,
os costumes preservados nas famílias
e a lembrança dos que partiram
e deixaram, na terra e na memória,
as marcas de sua existência.

O chocalho, o aboio e a foice
contam, juntos, a mesma história:

um anuncia,
o outro canta,
a terceira abre caminhos.

E os três testemunham
a grandeza de um povo
que fez da resistência uma virtude,
do trabalho uma honra
e da esperança uma forma de existir.

Assim, o chocalho segue ressoando,
como se a própria terra tivesse voz,
lembrando que resistir
não significa apenas suportar:
é preservar a dignidade,
honrar os antepassados,
reconhecer as origens
e transmitir às novas gerações
aquilo que o tempo não conseguiu destruir.

Porque há raízes que não se veem,
mas sustentam uma existência inteira.
São raízes que atravessam a estiagem,
resistem às intempéries dos anos
e permanecem vivas
mesmo quando a vida nos conduz
para muito além do lugar onde nascemos.

E quando a chuva finalmente chega,
molhando a terra sedenta,
o cheiro do chão desperta lembranças,
a caatinga renova suas cores
e o sertanejo contempla, agradecido,
o milagre simples da natureza.

Não é apenas a paisagem que renasce.
Renasce a confiança na caminhada,
o desejo de plantar novamente,
a alegria de contemplar o verde
e a certeza de que a esperança
também germina no coração humano.

Então, entre o vento, a chuva
e a vida que volta a florescer,
o chocalho continua sua cantoria,
como testemunho de que o sertão
não é apenas terra de resistência:

é chão de pertencimento,
de memória, de fé e de esperança;
é berço de uma gente
que transforma a própria história
em herança para os que virão.

E quando o sertanejo parte,
levando seus passos por terras distantes,
não deixa para trás tudo o que viveu.
Leva consigo o aboio da infância,
o cheiro da terra depois da chuva,
a lembrança dos que ficaram
e aquele chocalho invisível
que continua ressoando dentro da alma.

E o sertão não termina
onde acabam seus caminhos.
Ele atravessa o tempo,
vence as distâncias
e permanece inteiro
na alma de quem lhe pertence.

Benítez Torres
Poeta da terra da luz

Documento integral: acesse o PDF completo de O Chocalho que Resiste.

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Fonte original e crédito: PDF fornecido para esta publicação. Autoria indicada no documento: Benítez Torres.